segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Discurso Inovador

O Discurso inovador

A mulher do discurso pirâmide foi construindo o seu edifício pacientemente

desconcentrando os ouvintes, transformando-os em bocejos e suspiros. Alguns de tanto tentar penetrar a força das palavras até adquiriram torcicolos.

Colocou primeiro as mais pesadas, suficientemente impenetráveis e coesas na base. Depois foi construindo metodicamente, umas a agarrar as outras sempre

sobrepostas. Suficientemente sólida a parede das palavras, foi construindo mais

três, que se amparavam à primeira, sempre com estudada inclinação e peso para

que o interior OCO ficasse protegido de intromissões.

Quando por fim terminava a construção, já os topos mais vulneráveis, por terem

sido construidos no final com outro tipo de palavras mais leves e banais, da assistência hipnotizada com a força da erudição palavreática alguém teve de

dizer alguma coisa para o discurso não parecer tão oco como o interior da pirâmide.

E foi quando a voz da criatura soava encantadora por cima da assistência, qual

flauta de Krishna. Já a assistência adormecida, sem atentar ao conteúdo, mas seguindo apenas o som, que alguém deu pelo espírito santo da orelha e ouviu claramente:

- A linguagem poética vai acabar. Agora só podem utilizar-se metáforas eruditas, abstractas e sificientemente dissimuladoras de intenções. - De repente a mulher

que tinha espírito santo de orelha e língua de serpente soltou uma voz meio desconexa:

- Ora, isso não tem nada de inovador. Já se fazia no tempo da outra senhora, utilizarem-se metáforas eruditas, abstractas, e suficientemente dissimuladoras de intenções...

De repente os olhos da mulher que fazia o discurso faíscaram. As palavras cairam todas. Havia as que rastejavam pelo chão, corrosivas e de uma côr verde fosforescente. Apostar-se-ía que radioactivas. Outras pesadonas, quais fortalezas, répteis de línguas cinzentas pendentes como lagartos gigantescos, dragões de Komodo. No meio saltavam desprevenidas algumas jovens e leves palavras que tinham saído por engano. Não estava previsto.

E toda a pirâmide se desmoronava, perante a assistência pesarosa. Afinal um

edifício tão coerente e sólido...

No centro da pirâmide estava um homem. Enrolado sobre si mesmo na posição

fetal os pés a as mãos juntos acorrentados com uma grilheta de palavras. O olhos perdidos sem LUZ, reflectiam o cérebro dissolvido pelos esforços exercidos a desmontar as palavras radioactivas.

Em torno de si revolteavam borboletas de cores, azul metálico, verde alface,

amarelo jasmim e rosa fúcsia. Eram os sentimentos que na ânsia de beber as palavras enganosas radioactivas, o homem sacudira violentamente.

Na sua pequenez, tornava-se enorme pela força das palavras. Semicerrando os

olhos ver-se-ía uma crista reptilária que lhe subia ao topo da cabeça, e ainda as palavras verdes radioactivas lhe prendiam os pulsos e os tornozelos - estão verdes não prestam - mas eu não sou raposa - já as borboletas tinham descoberto um escorrega de LUZ e entravam pela boca, pelo esófago envoltas numa luz matutina ainda húmida e e dando volta em bailado sincronizado qual clave de sol íam rodopiando à volta do coração que se enchia de uma luz branca e dourada que se distendia a todo o corpo. Por fim todo o corpo do homem era luz. Passou de opaco

a transparente, deixando ver todos os orgãos que pulsavam regulares, após o que

se transformou numa massa incandescente.

As radioactivas soltaram-se guinchando e fugiram a sete pés (cem) parecendo centopeias.

Atarantada (atarantulada) a insignificante mulher com língua de serpente inclinava

o pescoço para um só lado, incapaz de dizer sim ou não e balbuciava palavras incoerentes sem perceber todo o processo, nem qual seria a sua missão ali...

Um comentário:

João Crisostomo disse...

Noite escondida esta
noite em que os precipícios nascem debaixo dos pés
como se fossem bocas
noite em que as crianças de tanto olharem o céu
perdem a fé nos brinquedos que lhes deram por destino
noite mansa noite doida
uma feira entre os caminhos repartida
noite em que escrevo fitando rostos cheios de infinito
e nunca o adivinhando aqui exactamente aqui
onde os pés poisam e marcam a lama
noite sem retrocesso
noite em que os barcos partem
sem jamais alcançarem porto ou paraíso
noite estranha noite fatal como a nossa sina
nela me perco nela me acho
e no entanto sou apenas cinzas
noite caprichosa como essa mulher vadia
e como ela fornicando atrás da sebe do jardim
sempre a mais próxima e a mais longínqua
noite efémera
noite sem estrelas nem lua nem vida
ao longe um cego dedilha uma melodia
passa a prostituta e nasce o dia
noite irreal
canto-a neste poema como ela estranho e outonal
tudo são palavras duras tudo é este cio animal
noite rumorosa onde as mãos se procuram
a palavra mais longínqua é a única natural
e o mais é sede que dura
noite outonal
tudo em mim fala de um corpo
duma dança de lágrimas ou dor ou espanto
noite criança
noite que nada pede e por isso não cansa
noite de lírios noite de fogo
se grito é porque trago a alma alvoroçada
noite em que tudo é verdade
passa o gato preto
o jorge de sempre ainda é vivo
mais uma aveleda para a mesa do canto
meu deus como estamos sós
a música toca
os soldados dançam uma estranha pantomina
o gato preto olha-me com a noite nos olhos
e pela primeira vez
mas não a última necessariamente
tudo em mim tomba e maio nasce aqui
noite em que deus e o diabo
fitam o mundo do fundo das idades
dançando depois uma dança lasciva
mistura medonha feita da verdade e da mentira
noite de amor e de melancolia
a próxima carícia ainda está por nascer
e é tão urgente romper muros
chegar ao outro ser nele a alvorada
outra vida mesmo desgarrada ou por conceber
noite em que me abeiro de mim e já não sei nada
só montanhas inacessíveis
só abismos desencontrados
e um arado rasgando este corpo
como se fosse um prado
noite em que todas as sílabas tombam
noite em que até apetece jogar à carica ou ao berlinde
noite em que é obrigatório perdermo-nos
em todas as ruas e esquinas
noite em que é urgente amar para sempre amar
mesmo de coração vazio
e nas mãos apenas o suplicio pelo que não podemos dar
noite em que me falas perto e longe
me dizes frases belas mas gratuitas
me tentas sempre com gestos vagos sem saberes
se eu te procuro ou já parti
noite de naufrágios
traga-me chá e torradas por favor
não há nada como a água de vidago para o fígado
ó senhor costa mais uma aveleda por favor
e então essa politica
eu cá só queria alguém que endireitasse isto
que se lixe a democracia
isto não é uma cidade mas um caixote de lixo
tem aí um cigarro, obrigado
noite em que passo solitário entre o que sou e já esqueci
e tantos rostos afogados e tantas palavras virgens
noite em que brilha toda a saudade
noite em que os mitos rompem o véu e são verdade
noite em que don quixote empunha a lança
e faz a descoberta de ser criança
mais uma vez


oh noite desmembrada
sou um louco que só fala do que é desgraça
mas tal como a vida
sigo sempre em frente e passo

Janus Wanderer
Lisboa, 1984